Tuesday, July 10, 2007

A questão
A questão colocada no cabeçalho do blogue não acarreta apenas uma definição de um ponto de vista geográfico (um ponto de observação) mas sim a procura dos contornos de uma identidade.
Dizer: "pensar a partir do que somos e do espaço que habitamos" pressuporia, em aparência, definir "o que somos", tarefa cuja dificuldade deveria dissuadir-nos.
Mas a definição prévia impõe-se apenas em aparência. Na realidade, nenhum de nós enquanto pessoa, nenhum dos grupos a que pertencemos, existe graças a uma definição prévia. Nem a qualquer definição sequer, pelo menos se a quisessemos exacta.
"O que somos" é uma essência que se realiza pouco a pouco, a partir das práticas e do pensamento sobre elas, e não algo que preexiste. Vejam aqui uma espécie de existencialismo antropológico.
Só trabalhando o material "que somos", elaborando, só praticando as duas operações simétricas que são uma arqueologia das identidades e dos patrimónios que sedimentam nas memórias de longo prazo, por um lado, e uma arquitectura prospectiva, construção e ficção, que orientam o futuro consoante a acção presente, e desenham bifurcações entre vários possíveis é que podemos ir definindo "o que somos", à medida que nos tornamos no que somos.
A questão de partida não é pois a da definição prévia, mas a doponto de vista a partir do qual olhar o mundo que foi, o que é e fazer o que será. A história do Sul é a história de uma conquista de um vasto território (à nossa escala) por um povo bárbaro do Norte e da destruição de uma civilização: a que existia, e o seu futuro (aquelas que poderiam ter vindo a ser).
E se essa história, contada como "re-conquista" - recuperação do teria sido perdido - fosse contada como conquista e como catástrofe, capaz de prolongar até hoje o eco dos seus efeitos destruidores? Se assim fosse, pensar o Sul como um "aquém-Tejo" e já "não do ponto de vista dos Galaico-portugueses, nossos amigos, mas não mais que vizinhos", seria recuperar o olhar dos que tinham outra história para contar e para construir.
Ora ela não foi contada, ainda menos construida, e a questão de "quem somos" reconduz-se, como disse, a quem poderíamos ter sido (uma história-ficção que produz realidade), e também a "quem podemos ser": aqui.
Possível? Não sei. Vale a pena pensar...